Terça-feira, Janeiro 12, 2010

DE QUANDO SPRINGFIELD NAAXTRO FOI ACUSADO DE UM CRIME QUE NÃO COMETEU E LUTOU COM UNHAS E DENTES POR SUA LIBERDADE E UM LUGAR AO SOL À TARDEZINHA

(parte 3)


Estando eu numa situação um tanto quanto embaraçosa, sendo vítima da acusação de ter cometido um crime que nem sabia qual era, jogado numa cela sem o mínimo de conforto, completamente abandonado e sem desodorante, achei que a melhor solução seria praticar meus exercícios de relaxamento e concentração para, quem sabe, encontrar uma solução utilizando meu eu interior. Sentei-me em posição de lótus e cumpri todos os procedimentos de praxe, trabalhando minha respiração tântrica, mântrica e xamânica, eliminando todo o pensamento baixo astral de minha cabecinha tão cheia de minhocas. Quando já estava completamente relaxadinho, um clarão se fez em minha cela e então ouvi uma voz ecoar como se fosse um trovão:
_ Spriiiiiiiiiiingfiiiiield Naaaaaaxxtro!
Assustei-me com aquela voz e imediatamente olhei para todos os lados procurando de onde vinha. Como não havia ninguém por perto, deduzi obviamente que só poderia ser uma voz celestial, provavelmente de Deus, que vendo a situação em que me encontrava, havia interrompido seus afazeres para vir falar comigo e quem sabe me dar uma solução divina, onisciente, onipresente e milagrosa. Ajoelhei-me como mandam as regras e os bons costumes religiosos para ocasiões como essa e falei:

_ Deus! É o Senhor que está aí?
_ Nããããão Springfield Naaxtro! Aqui é o Espírito de Natal.
_ Espírito de Natal? Mas nós estamos em abril _ respondi surpreso.
_ Abril? Então desculpe, foi engano, fuiiiiii.

Ainda tentei chamá-lo de volta, mas sem sucesso. Voltei para o meu estado de relaxamento e concentração, quando novamente fui interrompido por um clarão em minha cela e outra voz em forma de trovão:

_ Spriiiiiiiiiiingfiiiiield Naaaaaaxxtro!
Não querendo cometer nenhuma gafe, perguntei:
_ Quem está aí?
_ Adivinha? _ falou aquela possante e celestial voz.
_ Hã, deixa eu ver... Começa com “D”?
_ Está esquentando.
_ Deus? perguntei esperançoso.
_ Quase! Meu nome é Deusvanir e sou Secretário Adjunto de Deus para Assuntos Terrenos.
_ Poxa, que honra _ falei .
_ Vamos direto ao assunto Springfield. Sabemos que você é inocente e estou aqui para dizer que se tiver fé, você sairá vivinho da silva dessa tremenda enrascada. Você foi vítima de uma pessoa muito má e invejosa que sempre quis te apunhalar pelas costas.
_ Ora, mas que absurdo _ respondi indignado _ Sou uma pessoa tão bacana, amiga, verdadeira, sincera, íntegra, de bom coração e...
_ Ora, vamos Springfield Naaxtro, onde está sua humildade?
_ Ah sim, eu tinha me esquecido, também sou muito humilde. Mas afinal, quem faria uma coisa dessas comigo?
_ Isso eu não posso falar porque aí já seria fofoca.
_ Ah, conta aí vai _ insisti.
_ Tá bom, eu conto, mas não diz pra ninguém que fui eu que te falei, tá. Quem armou essa pra cima de você foi...

Então uma outra voz ecoou mais forte ainda, dizendo:
_ Deusvaaaaaanir! Já não falei para você parar de fazer fofoca.
_ Desculpe Senhor! _ falou Deusvanir meio sem jeito e completou _ Bem Springfield, como você bem ouviu, eu não estou autorizado a falar o nome dessa pessoa, mas você saberá isso em breve. O que importa mesmo é que se você se comportar direitinho, tiver pensamento positivo e parar de ficar vendo revista de mulher pelada, tudo correrá bem. Sempre há uma importante lição a tirarmos de nossas atribulações. Lembre-se dos escritos sagrados principalmente do versículo 7458 do anexo 3 do Livro de Ejacu de Acrimanéia que diz: "Bem aventuradas as criancinhas que entrarão na pré-escola sem a necessidade de taxa de matrícula".
Então aquele clarão se foi e o silêncio se fez novamente. Aquele fato fez com que eu recuperasse novamente as esperanças, pois sabia que se me comportasse direitinho, papai do céu iria me tirar daquela terrível situação. Estava completamente absorto, refletindo sobre aquela conversa celestial e me sentindo o rei da cocada preta por ter falado diretamente com o Secretário Adjunto de Deus para Assuntos Terrenos, quando fui interrompido por um outro detento que estava na cela diante da minha.
_ Hei amigo, desculpe, mas não pude deixar de perceber que você estava falando sozinho. Se precisar de alguém para dividir seu sofrimento pode falar comigo _ disse ele.
_ Eu não estava falando sozinho, estava falando com...

Então achei melhor ficar calado, pois não convinha falar de minhas intimidades com os níveis superiores celestiais, uma vez que isso poderia despertar algum tipo de inveja ou mau olhado me causando algum desarranjo ou mesmo a famosa ziquizira.
Então falei:
_ Bem, fico muito agradecido por sua oferta, na verdade estava mesmo precisando de alguém para trocar algumas palavrinhas.
_ Então diga, homem. Vamos lá, desabafe. Eu sei como é... Ah, já sei! Você é inocente e está aqui por culpa de alguém muito mau que deseja ver a tua caveira.
_ Exatamente! _ falei _ Mas como você adivinhou?
_ Veja, isso é o que todos falam. Mas não convence, sabe. Vai por mim, melhor achar um álibi. Você já tem um advogado?
_ Não.
_ Pois se você me permite, meu nome é Arlindo Lamba e Cole, da Recorte & Cole Advogados Associados e posso prestar-lhe todo o auxílio necessário para a sua defesa.
_ Um advogado? Mas como você pode me ajudar se você está preso?
_ Eu não estou preso, só estou aqui passando uns dias. É que minha mulher me pôs pra fora de casa, entende. Como sou amigo do carcereiro, pedi para ficar por aqui até fazer as pazes com minha patroa.
_ Sendo assim, não acho que possa recusar sua oferta. Tire-me daqui e ficarei eternamente agradecido _ falei.
_ Muito bem, mas antes de pegar o seu caso, preciso falar de meus honorários. Que tipo de crime o sr. cometeu?
_ Eu não cometi crime algum, mas estou sendo acusado de ter cometido o crime presente na página 23 do “Manual de normas e condutas muito bem detalhadinhas para quem vai ao Kudisquitão".
_ Ora, ora. Esse é considerado um dos crimes mais graves de nosso país. Eu diria que o sr. está em péssimos lençóis. É muito provável que o sr. tenha que pagar, inclusive, com sua vida e posso afirmar que as chances de ser absolvido são praticamente nulas sem os serviços de um advogado competente. Mas vamos ao que interessa. Para casos como esse, costumo aplicar a tabela nº3 que varia conforme o objetivo do cliente. Por exemplo: caso o sr. venha a ser condenado à cadeira elétrica, eu posso conseguir um upgrade levando-o para a câmara de gás pela bagatela de 1200 gulaks*.
_ Mas eu não quero ir para a câmara de gás, eu quero permanecer vivo_ respondi.
_ Lógico, mas como profissional que sou, tenho que oferecer todas as alternativas. E o sr. há de convir comigo que é melhor ir para a câmara de gás do que ser eletrocutado. A terceira opção seria tomar um comprimidinho de cianureto, completamente indolor e que o levará à morte em poucos minutos. Nesse caso, podemos contratar um violinista para tocar algumas músicas no momento de sua partida. Tudo isso por apenas 2000 Gulaks.
_ E seu quiser apenas o violinista, mas sem o cianureto?
_ O violinista só pode ser contratado com o cianureto. Se o sr. preferir a cadeira elétrica, posso conseguir um tocador de pandeiro. Caso prefira a câmara de gás, eu posso conseguir para o sr. um radinho à pilha. Sabe, nenhum músico quer correr o risco de entrar numa câmara de gás.

Procurando avaliar todas aquelas ofertas, achei que o melhor mesmo seria permanecer vivo, embora a ideia de ter um violinista tocando no momento da minha morte até que tivesse me atraído.
_ Muito bem. Agora vamos a opção que mais me interessa_ falei _ Quanto fica para eu sair vivo?
_ Depende. O sr. prefere sair vivo de forma discreta ou prefere uma certa pompa?
_ Bem, eu acho que mereço um atendimento de primeira.
_ Ótimo! É assim que se fala. Nesse caso, no momento de sua absolvição, do lado de fora da corte será estendido um tapete vermelho que o levará até uma limusine onde seis garotas lindíssimas o receberão com champanhe e caviar. Contrataremos também uma equipe de jornalistas que cobrirá o evento, além de um ônibus fretado com pessoas que gritarão o seu nome no momento de sua saída. Tudo isso será registrado em DVD e o sr. receberá o material editado em sua casa.
_ Vai ter tocador de pandeiro? _ perguntei interessado.
_ Podemos incluí-lo caso o sr. deseje.
_ Ótimo! Quero este pacote. Ah, e por favor, vocês poderiam incluir uma porção de pastéis de carne?
_ Com certeza sr. Naaxtro! Como posso perceber, o sr. é uma pessoa bastante sofisticada. Esse pacote sai por 25.000 Gulaks pagos antecipadamente.
Pensando com os meus botões cheguei à conclusão de que a vida humana não tem preço, principalmente quando a vida à qual eu me referia era a minha. A questão era que eu não tinha um puto se quer, sendo assim e portanto, achei por bem tentar financiar aquele valor em pequenas prestações de forma tal que pudesse pagá-las sem afetar o meu orçamento e sem precisar mexer na minha caderneta de poupança. No entanto, o Sr. Arlindo Lamba e Cole mostrou-se ser uma pessoa de pouca sensibilidade, não levando em conta minha situação financeira.

_ Sr. Naaxtro _ disse ele _ sou um profissional de reputação internacional. Se o sr. não tem condições de pagar meus honorários, sinto muito em dizer-lhe que há pouco a fazer pelo senhor. Além do mais, parte desses custos são para corromper todo o sistema político, judiciário, carcerário, futebolístico e interplanetário. Sem contar a contratação de um tocador de pandeiro e sua porção de pastéis. O mundo é movido por verdinhas Sr. Naaxtro e, além do mais, preciso contribuir com a associação dos jogadores de golfe com rinite crônica de Bangladesh. Estude todas as opções e veja aquela que melhor se adapte à sua condição financeira e não se esqueça: “a câmara de gás é melhor do que a cadeira elétrica".
Depois de dizer isso, o meu suposto futuro advogado voltou para a escuridão do fundo de sua cela. Achei que aquele era o momento de fazer uma oração, mas antes que começasse, ouvi uma voz dizendo: “peça dinheiro emprestado, Springfield”. Achei que fosse a voz divina falando comigo, mas na verdade era o Arlindo Lamba e Cole gritando de sua cela. Levando em conta a situação, achei que talvez fosse uma boa alternativa tentar um empréstimo. Mas quem poderia me emprestar tamanha quantia? A única pessoa que me vinha em mente era Úrsula Diante, a mulher que escolhi para ser a mãe dos meus filhos, a dona da pensão, a rainha do meu lar, a flor do meu jardim, enfim, o recheio de chocolate do meu biscoito de maizena. Chamei o carcereiro, para solicitar o meu direito constitucional de dar um telefonema:
_ O Sr. pretende ligar para onde? perguntou ele.
_ Ora, isso não te interessa. Eu tenho direito a um telefonema e quero usufruir desse direito.
_ Só se o sr. me disser para onde pretende ligar _ falou-me ele com ar de petulância.
_ Mas isso é um absurdo! Que país é esse que não permite que um homem detido injustamente não possa ao menos dar um telefonema.
_ Sr. Naaxtro, a última vez que permitimos que um detento utilizasse o telefone, ele ligou para o disk-sexo. E posso lhe afirmar que a conta veio bem salgada. Portanto não estamos autorizados a permitir ligações ao menos que o Sr. nos diga para onde pretende ligar.
_ Escuta, eu pretendo ligar do meu aparelho de telefone, portanto quem pagará a conta sou eu.
_ Bom, sendo assim tudo bem. Eu trarei seu telefone, mas devo avisar que, por questões de segurança, teremos que monitorar sua ligação.

O carcereiro voltou com o celular e junto com o aparelho, trouxe também o meu jantar, que consistia em um prato cheio de água morna.
Indignado com aquele tratamento, achei que deveria me manifestar:
_ Hei, vocês não podem me dar água morna de jantar.
_ Isso não é água morna, isso é sopa Sr. Naaxtro.
_ Não é não! Isso é água morna_ falei _ Sopas costumam ter pedaços de coisas junto com a água e aqui não tem nada. Só tem água.
_ Sr. Naaxtro, se há uma coisa que não admito é desrespeito à nossa cultura. Pelo que vejo, o Sr. não conhece nada sobre nossa culinária. Pois fique sabendo que aqui no Khudiquistão, as sopas são feitas apenas com água que, diga-se de passagem, é enriquecida de sais minerais. Mas caso o Sr. não esteja satisfeito, podemos servi-lo uma pizza.
_ Pizza do quê?
_ O Sr. escolhe o sabor! Basta pagar um valor simbólico de 30 gulaks.
_ Eu não tenho dinheiro caramba!
_ Aceitamos cartão de crédito ou, caso prefira, podemos incluir todos os serviços prestados aqui no pacote que o sr. Arlindo Lamba e Cole ofereceu.

Naquele momento fui tomado pela fúria, pois havia percebido que estava sendo vítima de um sistema corrupto e vil. Raramente em minha vida de aventuras e lidando com o perigo, perco o meu controle. Mas naquele momento, achei por bem extravasar todo meu ódio e descontentamento. O carcereiro, percebendo minha fúria, afastou-se dando um passo para trás. Respirei profundamente e, franzido minha testa como um animal feroz prestes a dar o bote contra sua presa, falei:
_ Sei que estou sendo vítima de um sistema corrupto e opressor. Então serei bem claro: quero minha pizza meio calabresa meio mussarela com orégano e cebolas. E não venha com essa historinha de colocar catupiry nas bordas, pois eu sei que vocês substituem o queijo por mingau. E para o seu bem, é melhor que ela chegue bem quentinha, porque eu detesto pizza fria. Lembre-se de uma coisa: vocês estão lidando com Springfield Naaxtro, aquele que já atravessou oceanos a nado, namorou com as mulheres mais belas de Hollywood, de Bollywood e da boate da Kiki, enfrentou tiranos e terroristas de todo o mundo; que já foi à Lua, à Marte; que sobreviveu a uma queda de cabeça da Torre Eiffel, que já foi destaque da escola de samba Unidos da Vem que Vai, etc, etc, etc.
_ Pois eu acho que o Sr. é um grande mentiroso!_ respondeu-me desaforadamente o carcereiro, e continuou:
_ Eu digitei o seu nome no Google e não apareceu nada, o que significa que o Sr. não passa de um desconhecido.
_ Isso é porque eu sou um agente secreto e, como o Sr. já deve saber, agentes secretos não podem aparecer no Google. De qualquer maneira quero deixar bem claro que sairei daqui vivo e, embora eu não seja uma pessoa vingativa, devo avisá-lo que participei da oficina de criadores de bonequinho de vodu da Tia Zabalaê de Ogungunzá e farei questão de fazer um bonequinho de todos aqueles que me fizerem algum mal. Você entendeu?

O carcereiro, então pareceu entender o meu recado. Tentando disfarçar o seu medo, respondeu gaguejando.
_ Eu entendi sr. Naaxtro. O Sr. prefere brotinho ou tamanho família?

Para impressionar, achei por bem não responder aquela pergunta.




Assim que fiquei sozinho em minha cela, tentei completar minha ligação para a única pessoa que poderia me tirar daquela encrenca: Úrsula Dante. Depois de quarentas minutos tentando, consegui entrar em contato com a Companhia telefônica da Tonga da Mironga do Caburetê. E numa dessas coincidências típicas de novelinhas vespertinas, ou de filmes hollywoodianos previsíveis, ou mesmo um desses best-sellers meia boca, vejam só quem foi que atendeu minha ligação:
_ Aqui é a atendente Ismelda. No que posso lhe ajudar?
_ Ismelda! Aqui é Springfield Naaxtro! Que coincidência! Nos falamos dias atrás quando você me vendeu um pacote de serviços de vocês.
_ Sr. Naaxtro, não se trata de uma coincidência! "Ismelda" é o nome padrão de todas as atendentes de nossa empresa. Esse nome foi escolhido em homenagem à Ismelda Marcos, mulher do dono.
_ Puxa vida, quer dizer então que a Ismelda com a qual estou falando não é a mesma que me atendeu dias atrás.
_ Ao todo são 300 atendentes por cada turno, totalizando 1500 atendentes chamadas “Ismelda”, mas por uma dessas coincidências que só vemos em novelinhas vespertina, filmes hollywoodianos previsíveis, ou mesmo num desses best-sellers meia boca, eu sou a mesma Ismelda que atendeu o Sr.
Então pude perceber uma ajudinha divina. Era Deusvanir lá do céu que estava dando uma força, sem dúvida. Evidentemente que uma outra Ismelda qualquer não poderia entender a profundidade de meu problema. Com a Ismelda original eu iria poder poupar bastante trabalho.
_ Eu sabia! Eu sabia!. Só podia ser você minha querida Ismelda _ falei radiante.
E continuei:
_ Escuta, estou numa situação dificílima e preciso que você me complete uma ligação urgente! Estou no Kudhiquistão, sem lenço e sem documento, preso por um crime que não cometi, sem dinheiro e sem dignidade.
_ Sr. Naaxtro, não tenho boas notícias. O Sr. gastou todos os seus créditos. Não tenho como completar sua ligação.
_ Como assim? Eu nem usei meu telefone.
_ Bem, consta aqui que o Sr. fez 30 ligações para o disk-sexo.
_ Disk-sexo????
_ Exatamente.

Agora tudo estava claro. Na verdade eram os próprios responsáveis pela prisão que ligavam para o disk-sexo e colocavam a culpa nos presos. Oras bolas, aquilo era uma tamanha cafajestagem. Tentei explicar para Ismelda que eu não tinha nada a ver com aquilo:
_ Escute, estou sendo vítima de uma trama sórdida e corro o risco de perder a segunda coisa mais importante para mim que é a minha vida.
_ Desculpe, mas se a sua vida é a segunda coisa mais importante para o sr., qual é a primeira?
_ O meu quebra-cabeças do mundo encantado de Donk Donk.
_ Puxa, sério mesmo que o sr. tem o quebra-cabeças do mundo encantado de Donk Donk!
_ Sim, e inclusive está completo e devidamente guardado em um cofre num local que não ouso revelar a ninguém e que constará em meu testamento.
De repente fez-se silêncio do outro lado do telefone. Após alguns segundos, com a voz trêmula, Ismelda falou.
_ Bem sr. Naaxtro, eu também tenho esse quebra-cabeças e, assim como a maioria das pessoas, ele está faltando a perna direita do “ursinho palhaço Jen”.

Essa era, sem dúvida, a mais rara das peças do quebra-cabeças do mundo encantado de Donk Donk. Conta-se que uma maldição rondava essa fatídica peça e que sempre que a editora mandava confeccioná-la, algo de ruim acontecia às pessoas envolvidas no processo. Certa vez, ao tentar imprimir um lote dessa peça, um funcionário da empresa foi acometido por uma terrível dor de dente, sua sogra foi visitá-lo e o preço da gasolina aumentou. Depois de seguidas tentativas infrutíferas, a editora foi obrigada a contratar um padre, uma mãe de santo e um cantor de churrascaria para tentar emanar energias positivas e evitar mais uma catástrofe. Nada disso impediu que mais um incidente ocorresse, e o mesmo funcionário foi acometido, dessa vez, por uma terrível prisão de ventre, descobriu que sua carteira de habilitação estava vencida, teve o fornecimento de gás de sua casa cortado e foi mordido por um poodle. Depois de tantos acontecimentos estranhos, a editora decidiu por não produzir mais dessas peças, fazendo com que pouquíssimas pessoas tivessem completado o quebra-cabeças. Eu era uma delas, aliás eu era a única pessoa que possuía duas cópias adquiridas no mercado negro a um preço vultuoso.

Diante disso, Ismelda fez sua proposta.

_ Muito bem Sr. Naaxtro. Eu não tenho como completar sua ligação, mas posso entrar em contato pessoalmente com essa pessoa e dar o seu recado em troca da peça do "ursinho palhaço Jen"

Aquilo foi como um soco no estômago. Mesmo tendo duas peças, confesso que senti como se o mundo tivesse desabado sobre minha cabeça. Ter apenas um quebra-cabeças montado era muito arriscado. E se alguma coisa acontecesse e eu perdesse a única coisa realmente valiosa que eu possuía. O meu quebra-cabeças valia milhões e era objeto de cobiça entre os colecionadores do mundo inteiro. Refleti um milésimo de centésimo de segundos e respondi:
_ Ok, mas você deve fazer isso ainda hoje pois serei julgado em dois dias e se for condenado, serei executado logo em seguida. Por favor, seja breve!

Na verdade, considerando que aquele era um país atrasado, muito provavelmente eu levaria muitos meses e talvez até anos para ser julgado. No entanto, precisava fazer um drama para que Ismelda entendesse a gravidade do meu caso. Então ela respondeu:
_ Sem problemas Sr. Naaxtro. Hoje mesmo darei o seu recado. Tenho manicure às 18h, chá de bebê às 19:30 e, em seguida, tenho que ir a um bota fora de uma amiga que vai para Miami. Às 23h pretendo ir ao mercado fazer umas comprinhas pois minha despensa está realmente vazia. Saindo do mercado, preciso passar na casa da minha sogra para pegar meus filhos. Chegando em casa, preciso colocar umas roupinhas na máquina. Creio que às duas da manhã estarei livre e cumprirei com minha missão. Para quem devo dar esse recado?
_ O nome dela é Úsula Diante.
_ Úrsula Diante! Nossa, que coincidência. Isso tá mesmo parecendo aquelas típicas novelinhas vespertinas ou esses filmes hollywoodianos previsíveis, ou mesmo esses best-sellers meia boca. Ela é minha vizinha, somos amicíssimas.
_ Nossa Ismelda, que ótima notícia. Então diga a ela que estou precisando urgentemente de 25.000 Gulaks para pagar um advogado, e que tenho dois dias para conseguir isso, caso contrário, estarei morto.
_ Fique tranquilo, mas preciso ter garantias de que o Sr. vai mesmo me entregar o que prometeu.
_ Estou lhe dando minha palavra _ falei em tom firme.
_ Quando se trata de algo tão importante, não dá para ficarmos só na palavra. Preciso que o Sr. me passe a localização de onde está guardado o seu quebra-cabeças e todas as instruções para que eu possa pegá-lo.

Realmente eu estava lidando com uma profissional. Tive que fazer o que ela pedia.

_ Muito bem Ismelda! Você ganhou! Vá até o meu endereço, embaixo de um vaso de tulipas que se encontra ao lado da porta principal, você encontrará uma chave que abre minha casa. Na parede esquerda da sala você verá um retrato de 50cm por 1,30cm de meu Avô Rasputin Naaxtro fumando cachimbo enquanto coça sua frieira.
_ O cofre está atrás desse retrato?
_ Não, mas é um belo retrato e gostaria que o visse. Ah! Tem suco de beterraba na geladeira e biscoitos de champanhe no armário. Fique à vontade. Por favor, não repare na louça que tem na pia. É que dei uma festa semana passada e não tive tempo de...
_ Sr. Naaxtro, vamos ao que interessa, onde está o cofre?
_ Sim, sim, o cofre. Entre no meu quarto, sobre minha cama você encontrará um travesseiro com a fronha do mundo encantado de Donk Donk. Na verdade esse travesseiro é um cofre secreto onde guardo o meu quebra-cabeças. Para conseguir abri-lo é necessário que você encoste sua boca na parte central do travesseiro, exatamente onde ponho minha cabeça, e dê três beijocas carinhosas.
_ Tenho que dar três beijos no travesseiro no qual o Sr. dorme?
_ Sim, o cofre só é aberto dessa forma. Mas por favor, pegue apenas a peça que está faltando, ainda tenho esperanças de conseguir outra peça dessas e completar novamente o meu quebra-cabeças.
_ Ok, pode confiar Sr. Naaxtro, e eu garanto ao senhor que, no que depender de mim, em breve o sr. estará são e salvo.

Assim terminou nossa conversa. Alguns minutos depois chegou meu jantar juntamente com um telegrama do Tribunal de Justiça do Kudhiquistão. Nele estava escrito:

“Caríssimo Sr. Springfield Naaxtro:

Informamos que, graças aos nossos modernos sistemas totalmente informatizados, já foi possível efetuarmos o seu julgamento sem a necessidade de que vossa senhoria fosse incomodado com o deslocamento desnecessário para um tribunal. Gostaríamos de salientar que se tratou de um julgamento justo onde todas as partes foram ouvidas e que, obviamente, levamos em consideração à sua previsível alegação de inocência. Todavia, depois de uma análise profunda sobre o seu caso, este tribunal decidiu por julgá-lo culpado de todas as acusações, sendo, portanto, condenado à cadeira elétrica. Informamos também que, graças mais uma vez ao nosso sistema totalmente informatizado que possibilitou máxima desburocratização, o Sr. será executado daqui a apenas 4 horas"

Ass: Meritíssimo, Excelentíssimo, Magnânimo e, por que não dizer, Estupendo Juiz da Vara, Aguinaldinho Napa Grande.”

Imediatamente questionei meu advogado, Arlindo Lamba e Cole sobre aquele comunicado.

_ Não se preocupe Sr. Naaxtro. Trata-se apenas de uma mera formalidade para agilizar o processo. Mas com nossa equipe de advogados, nós podemos apelar para as cortes superiores e, inclusive, podemos apelar para o governador que pode suspender a execução a qualquer momento. Caso o governador não concorde, nós podemos apelar para a mulher do governador, Dona Balbina de Windsor, para que ela tente convencê-lo. Caso o Sr. não saiba, Dona Balbina de Windsor é conhecida por ter um coração de ouro, ter um dente de ouro e colecionar brincos de ouro e, sem dúvida nenhuma, ela entenderá sua situação e fará todo o possível para salvá-lo. Se em último caso, ela não conseguir dissuadi-lo, nós podemos apelar para o cunhado do governador, que é um cara gente fina e que adora jogar sinuca. O governador atende a todos os pedidos de seu cunhado e não recusará a mais um. Enfim, ainda há muitas possibilidades, inclusive, um curinga que sempre temos guardados na manga.
_ Um coringa? _ perguntei.
_ Sim, veja só.
Então Alindo Lamba e Cole tirou um uma carta de baralho de dentro do punho de seu paletó e me deu.
_ Mas esta carta não é um coringa, é um ás de copas _ falei.
_ Hã, desculpe sr. Naaxtro. Acho que confundi as cartas. De qualquer forma, nós só poderemos fazer algo pelo senhor depois que o dinheiro for depositado em nossa conta.
_ Mas eu não tenho como fazer isso em 4 horas. Eu só terei esse dinheiro em dois dias.
_ Bem, daqui a dois dias o Sr. já não estará morto. Mas, caso o dinheiro seja depositado antes do seu enterro, oferecemos um ótimo pacote funerário que inclui belíssimas modelos contratadas especialmente para chorar durante o velório, além de um violinista ou um tocador de pandeiro.
Achei que aquele era um ótimo momento para entrar em pânico. Liguei novamente para Ismelda para pedir que ela entrasse em contato com Úrsula Diante antes de ir à manicure:
_ Atendente Ismelda, boa tarde.
_ Ismelda, aqui é Springfield Naaxtro novamente. Você precisa ir logo falar com Úrsula Diante, pois serei executado daqui a 4 horas.
_ Desculpe Sr., mas não sei do que está falando.
_ Ora, deixe de brincadeiras. Nós nos falamos agora a pouco.
_ O Sr. deve estar me confundindo com alguma outra atendente. Ao todo somos mais de 300 atendentes chamadas Ismelda nesse horário.
_ Então por favor, pergunte aí se tem alguma Ismelda que conhece Springfield Naaxtro, é caso de vida ou morte.

Então, Ismelda gritou para suas amigas:
_ Ei, alguém aí conhece um sujeito chamado Stingfrild Maacho?
Em seguida ouvi um “não” coletivo.

_ Escute, não é Stingfrild Maacho, é Springfield Naaxtro.
_ Olhe aqui meu senhor, Stingfrild Maacho ou seja lá o for, ninguém aqui conhece. Portanto faça-me o favor de desligar esse telefone e não nos aborrecer mais. Essa aqui é uma empresa séria e não temos tempo para brincadeirinhas. Devo avisá-lo que, para evitar que o Sr. continue nos aborrecendo, estou bloqueando as chamadas de seu telefone. Muito obrigado e tenha um bom dia.

Então o telefone foi desligado.


_ E aí Sr. Naaxtro, conseguiu levantar a grana? _ perguntou Arlindo Lamba e Cole.
_ Não! Estou em maus lençóis e você, como meu advogado, tem por obrigação entender minha situação.
_ Entender, eu entendo. Mas infelizmente não tenho como ajudá-lo. Sabe, já vi muitos casos assim, e confesso que meu coração dói profundamente. Ver um homem como o Sr. virar churrasquinho não é nada fácil. Mas, uma das principais lições que aprendi na faculdade foi: “jamais trabalhe fiado”. De qualquer forma, devo dizer que foi um prazer conhecê-lo e para demonstrar que sou um homem de bom coração, fornecerei o tocador de pandeiro apenas como uma cortesia.

Fiquei realmente emocionado com aquela demonstração de humanidade do Sr. Arlindo Lamba e Cole e agradeci efusivamente dizendo que aquele gesto mostrava que ainda havia esperanças na humanidade. Nesse momento, um homem vestido todo de preto segurando um microfone e acompanhado de dois guardas entrou em nosso setor e aproximou-se de minha cela. Junto com eles, um outro sujeito com uma câmara registrava tudo.
_ Muito bem Sr. Naaxtro. Meu nome é Gustav Gustav e sou o responsável pela sua execução. Devo dizer que as execuções aqui em nosso país são transmitidas ao vivo pela televisão e costumam dar ótimos índices de audiência, superando, inclusive, a novela e o futebol. Também disponibilizamos 150 ingressos a 180 Gulaks cada, mas como o Sr. bem sabe, com o advento da carteirinha de estudante falsificada, a maioria acaba pagando meia. Estou dizendo tudo isso para que o Sr. saiba que as execuções aqui são tratadas de forma séria e sem sensacionalismo. Criamos também uma linha direta para que as pessoas votem de casa e, caso o Sr. alcance o patamar de 99,9% de aceitação, sua execução será suspensa e o Sr. ganhará uma viagem para o Caribe com direito a acompanhante. Esse prêmio é concedido por nossos patrocinadores que são: “Calcinhas de algodão Fofinha”, “Peixaria do Gomes da Costa”, “Sucuzinho de Caju” e “Barbearia do Cabelo”. Gostaria, também, de informá-lo que devido a mudanças na grade de horário da TV, teremos que antecipar a sua execução para daqui a 15 minutos. O Sr. gostaria de dizer alguma coisa para nossos telespectadores?

Senti que aquela era a melhor oportunidade de sair daquela situação com vida e que, se eu desse um depoimento carregado de sentimento, poderia sensibilizar o grande público e conquistar os 99,9% de aceitação. Além do mais, poderia ganhar minha lua de mel no Caribe ao lado de Úrsula Diante. Achei também que seria um boa fazer uma média com os anunciantes. Comecei meu discurso:
_ Senhores telespectadores, meu nome é Springfield Naaxtro e gostaria, antes de mais nada de agradecer aos patrocinadores por essa grande oportunidade de ir ao Caribe. Estou aqui para dizer a todos que nunca viajei para lá, pois sou uma pessoa muito humilde e sem posses e gostaria muito de contar com a ajuda de todos para realizar esse meu grande sonho. Aproveito também para dizer que sou inocente. Não é que eu queira tirar o meu cu da reta, mas...
_ Sr Naaxtro, estamos em horário nobre, há muitas famílias assistindo a TV agora. Por favor, evite falar palavrão _ falou Gustav Gustav.
_ Hã, desculpe _ falei constrangido e continuei.
_ Eu sei que é foda ficar ouvindo alguém falando na nossa orelha, mas...
_ Sr. Naaxtro, por favor, olhe o palavreado!
_ Ok, ok! _ falei tentando me concentrar e voltei ao meu discurso.
_ Bem, enfim para finalizar gostaria de dizer que vocês são do caralho e que tenho certeza que...
_ Pausa para os nossos comerciais _ falou Gustav Gustav.

Em seguida, fui conduzido para o local onde seria realizada minha execução que consistia em um enorme auditório que, diga-se de passagem, já estava completamente tomado pelo povo. Quando entrei no palco, fui aplaudido por todos, o que me deixou realmente envaidecido pois percebi que mesmo numa situação como essa, ainda era querido pela população. Então Gustav Gustav falou olhando para as câmeras:
_ Muito bem senhores telespectadores, estamos aqui com mais um programa “Mata ou não Mata”, dessa vez com a participação do sr. Springfield Naaxtro. Se você acha que ele deve ser executado, disque 0, se você acha que ele deve ser inocentado, digite 3497WZX295T9 acompanhados da frase “Eu gosto de usar calcinhas de algodão Fofinha”. Você tem 15 minutos para decidir o futuro deste homem. Enquanto isso, chamamos ao palco uma pessoa que diz conhecer Springfield Naaxtro e que fez questão de estar presente neste momento. Apresento a vocês o Sr. Sidnelson Nelson.

A presença de Sidnelson Nelson me deu calafrios. Ele era a segunda pessoa mais desonesta que eu conhecia (a primeira pessoa mais desonesta que eu conhecia era minha avó por parte de mãe, Gertrudis Hewlet Naaxto, mas falarei dela num momento oportuno). Invejoso, Sidnelson copiava tudo que eu fazia, mas sem conquistar o meu sucesso. Era um homem rancoroso que faria tudo para me tirar de seu caminho. Agora eu sabia quem estava por trás de toda essa tramóia.

_ Muito bem Sr. Sidnelson! _ falou Gustav Gustav _ o Sr. conhece Springfield Naaxtro?
_ Sim, conheço muito bem e, inclusive, estou aqui em nome da Sociedade Internacional dos que Odeiam Springfield Naaxtro _ respondeu ele debochado.
_ Protesto! _ falei furiosamente e então todos da platéia disseram:
_ Óóóóóóóóóóóóóh

Percebendo que havia criado um clima de grande suspense, continuei:
_ Essa Sociedade Internacional dos que Odeiam Springfield Naaxtro nem existe. É tudo balela.
_ Existe sim, e já está com 1.500 membros _ respondeu Sidnelson.
_ 1.500 membros é muito pouco se considerarmos que o mundo tem quase 6 bilhões de pessoas _ falei.
_ Mas eu criei esse grupo há apenas meia hora _ falou Sidnelson _ creio que em apenas 1 semana atingiremos a marca de 2 milhões de pessoas.
_ Óóóóóóóóóóóóóh _ reagiu o público.

Fiz uma continha de cabeça e achei que talvez ele tivesse razão.

_ E digo mais _ continou Sidnelson _ Springfield Naaxtro é pai de 12 filhos e não paga pensão de nenhum deles. Springfield Naaxtro é frouxo e caloteiro, pede dinheiro emprestado e não paga, toma banho somente aos sábados, rouba pirulito de criancinhas e mija na cama.
_ Óóóóóóóóóóóóóh _ reagiu o público novamente.
_ É mentira, é mentira! _ gritei enfurecido.
_Qual das acusações é mentira Sr. Naaxtro? _ perguntou Gustav Gustav.
_ Eu tomo banho todos os dias e, inclusive, uso o talquinho do Donk Donk para evitar assaduras. Já roubei pirulito, mas foi para matar a fome num momento de dificuldades. Parcelei todas minhas dívidas, menos a da TV a cabo que ainda estou em negociação, e não mijo na cama a muito tempo, pois é público e notório que durmo de fraldas.
_ E o que o Sr. tem a dizer sobre os seus 12 filhos? _ insistiu Gustav Gustav.
_ Na verdade eram 13 _ respondi _ mas comprovei por meio dos mais avançados exames de DNA que, apesar de todos se parecerem muito comigo, na verdade eles eram filhos do leiteiro, do padeiro, do eletricista, do entregador de pizza, do mecânico, do sapateiro do...
_ Ok Sr. Naaxtro _ interrompeu Gustav Gustav e voltou seus olhos para a câmera dizendo:
_ Muito bem telespectador, como vemos aqui, ao que parece o Sr. Springfield Naaxtro realmente merece o seu julgamento final. E as ligações estão encerradas. Após o intervalo comercial, divulgaremos o resultado de mais um “Maaaata ou não Maaaaataaaa”.

Estava realmente confiante, achei que minha defesa havia convencido as pessoas de que eu era um homem de bem e que Sidnelson Nelson era um sujeitinho sem caráter. Eu iria mostrar que meu carisma era maior do que qualquer especulação ou calúnia. Então finalmente o programa voltou ao ar e com ele o resultado:

_ Muito bem senhoras e senhores. Estou aqui com o resultado e confesso que esse foi, sem dúvida, o mais impressionante de todos os resultados já alcançados nesse programa. O Sr. Springfield Naaxtro alcançou a incrível marca de 100%!
_ Óóóóóóóóóóóóóh _ respondeu a plateia.

Isso significava que eu havia inclusive ultrapassado a marca de 99,9% e que estava livre para voltar para os braços de Úrsula Diante e para o meu adorado país sem a necessidade de advogado. O mundo havia feito justiça para com Springfield Naaxtro, graças evidentemente a uma ajudinha lá do céu. Já estava me levantando da cadeira, quando fui interrompido por Gustav Gustav.

_ Onde o Sr. pensa que vai Sr. Naaxtro?
_ Oras, uma vez que alcancei essa importante marca, estou livre e quero voltar para casa. Por favor, o Sr. pode mandar minhas passagens para o meu endereço. Agradeço ao povo desse maravilhoso país pela demonstração de carinho e apreço e...
_ Sr. Naaxtro, o Sr. atingiu a incrível marca de 100% de rejeição. Nunca em nosso programa tanta gente optou pela execução de um participante. O Sr. agora deve permanecer sentado em sua cadeira para que possamos iniciar os trabalhos, mas antes, gostaríamos de ouvir suas últimas palavras. Lembre-se, nada de palavrões; estamos em horário nobre.

Tomado mais uma vez pelo desespero, só me restou apelar para a fé:
_ Deusvaaaaaaaaanir, faça alguma coisaaaaa!

Mas o que ouvi foi apenas o silêncio. Nada aconteceu, eu estava prestes a morrer e nenhum milagre havia acontecido. O semblante de meu arqui-inimigo Sidnelson Nelson apresentava um leve traço de felicidade e observando bem, notei que ele tinha pêlos no nariz e na orelha e que sua cútis não estava nada boa. Então, olhei para todos à minha volta e achei que aquele era o momento ideal para soltar uma pequena lágrima representando toda minha insatisfação com aquela injustiça. Aquela lágrima foi se transformando em um leve choro, e em seguida, comecei a gritar como um louco e espernear, mas a essas alturas eu já estava atado à cadeira. Chegava o momento derradeiro de Springfield Naaxtro. Em seguida, Gustav Gustav, agradecendo aos patrocinadores solicitou que uma linda garota utilizando apenas calcinha e sutiã de algodão “Fofinha” ligasse a chave que liberaria 20.000 volts. Ao meu lado, um tocador de pandeiro tocava a marcha fúnebre de Chopin. Então, chegou o momento fatídico:

_ Muito bem senhoras e senhores, que rufem os tambores! _ falou Gustav Gustav.
Então finalmente a chave foi acionada. O silêncio imperou no local. Mas nada aconteceu. Todos ficaram olhando para mim com curiosidade. Gustav Gustav se aproximou, perguntando:

_ Sr. Naaxtro, o Sr. está bem?
_ Hãããã, acho que sim.
_ O Sr. não sentiu nada.
_ Só um choquinho, mas já passou.
_ Ok, então vamos tentar novamente. Que rufem os tambores.

E novamente a chave foi acionada, mas desta vez ouviu-se um enorme estouro e tudo ficou escuro.

_ Hei, alguém aí poderia chamar um eletricista? _ alguém falou.
_ Uma vela, uma vela! _ gritou Gustav Gustav.

No meio da confusão, achei que aquela seria minha oportunidade de fugir e foi o que fiz, saindo pela porta dos fundos à francesa, como mandam as boas regras do cavalheirismo. Enquanto corria feito um louco, ainda ouvi a voz de Sidnelson Nelson gritando "Springfield, você escapou dessa vez, mas da próxima, não escapará". Para respondê-lo, fiz apenas um singelo gesto com a mão representado o membro sexual masculino e dei no pé. Procurei ajuda no consulado de Tonga da Mironga do Caburetê, que como bem sabemos é território inviolável, onde fui muito bem recebido pelo nosso Cônsul, o senhor Dudu Perninha. Lá, matei saudades do meu país tomando o delicioso licor de bala de goma, bebida essa exportada para diversos países do mundo e que muito nos orgulha. Antes de dormir, agradeci a papai do céu por ter me tirado dessa enrascada e mandei um abraço especial a Deusvanir, que foi um sujeito de palavra. Como estava ainda no consulado, achei por bem colocar minha fralda da turma do Donk e Donk, pois não seria de bom tom fazer xixi na cama dos outros. Escovei meus dentinhos, tirei a cera do ouvido e fui dormir o sono dos justos.

























* Gulak é a moeda do Kudhiquistão, mas é também a marca de um famoso chocolate daquele país produzido a base de cacau e leite de tigre (também conhecido como porra de tigre, uma vez que tigre não dá leite). 1 Gulak equivale a 0,02 centavos de dólar e é uma moeda que vem se desvalorizando grandemente. Com 1 Gulak não se compra nada, com 10 Gulaks também não. Se você tiver com 20 Gulaks no bolso, isso significa que você é um idiota e só está fazendo volume em sua carteira. Com 70 Gulaks você compra uma barra de chocolate Gulak. Isso fez com que os cidadãos do Kudhiquistão optassem por andar com uma barra de chocolate no bolso, em vez de andar com dinheiro. Portanto, 1.200 Gulaks significam, na verdade, 1.200 barras de chocolate Gulak que convertido na moeda Gulak chegamos ao valor de G$ 84.000. O cálculo é simples, basta multiplicar G$ 1.200 X 70 barras de chocolate e chegamos a esse valor. O povo do Kudhiquistão é muito bom em matemática por conta disso.

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