Quinta-feira, Março 19, 2009

DE QUANDO SPRINGFIELD NAAXTRO FOI ACUSADO DE UM CRIME QUE NÃO COMETEU E LUTOU COM UNHAS E DENTES POR SUA LIBERDADE E UM LUGAR AO SOL À TARDEZINHA

(2ª PARTE)

Quando mamãe me deu à luz, jamais imaginaria que seu querido filho, Springfield Naaxtro, se transformaria numa pessoa tão conhecida e respeitada nos meios político, acadêmico, eclesiástico, jurídico, policial, esportivo, artístico, gastronômico e também, porque não dizer, nas altas rodas do jet-set dos metiês mais badalados do high-society burguês descaradinho e sem vergonha de ser feliz.
Pensava sobre isso enquanto lia o telegrama enviado pelo Ministério das Relações Exteriores e de Interiores do Khudiquistão me convidando para uma visita. Nele estava escrito:

Estimado sr. Springfield Naaxtro

É com muito prazer que recebemos a notícia de sua honrosa presença em solo Kudhiquen. Sendo assim e portanto, gostaríamos de convidá-lo para um pãozinho com mortadela com tubaína geladinha, e um joguinho de biriba, quando aproveitaremos a ocasião para discutir os problemas que assolam nosso mundo além de falarmos de futebol e mulher. Mandaremos um motorista buscá-lo amanhã às quatro da tarde, para que possamos tomar o nosso chá das cinco, exatamente às cinco, e não às cinco e dez ou cinco e quinze.

PS. Não aceitaremos um “não” como resposta, nem desculpinhas do tipo “minha mamãe está internada”.



Ass: Ardisinho di Sorza
Ministro das Relações Exteriores e de Interiores da República do Kudhiquistão

Embora acostumado com convites desse tipo, confesso que fiquei um tanto envaidecido e cheio de gases.
Escolhi o meu melhor smoking e aguardei ansiosamente até a hora do meu encontro diplomático, uma vez que não tinha absolutamente mais nada de interessante para fazer. Apesar de serem ainda apenas 10 da manhã, achei que seria conveniente já me aprontar e permaneci assim por todo o dia. Mas minha ansiedade foi se transformando em cansaço e acabei caindo num profundo sono. Embora seja uma pessoa bastante cética, pois jamais acreditei em papai-noel e nem em coelhinho da páscoa, acredito ter tido aquilo que seria um sonho premonitório. Nesse sonho estava eu e Ferdinand Kafka (o irmão bastardo de Franz Kafka), figura essa da qual gostaria de abrir um parêntesis para contar um pouco de sua história.
Ferdinand Kafka, assim como seu irmão Franz, também foi um talentosíssimo escritor, mas infelizmente jamais conseguiu alcançar o reconhecimento de seu irmão. Enquanto Franz escrevia o “Processo”, Ferdinand escreveu “Dúvidas de Bianca”, enquanto Franz escreveu “A Metamorfose”, Ferdinand escreveu “O barato da baratinha” e enfim, para cada livro escrito por Franz Kafka, o seu irmão escrevia um outro. Mas a falta de reconhecimento foi deixando Ferdinand acabrunhado e, porque não dizer, puto da vida uma vez que mal tinha dinheiro para ir ao shopping. Foi quando recebeu uma carta de seu velho amigo Van Gogh sugerindo que ele cortasse a orelha.
Van Gogh, o famoso pintor, como bem sabemos, jamais conseguiu vender um quadro em vida, mas depois de ter cortado a orelha, conseguiu vender sua coleção de figurinhas da Turma do Patinho Fritz a um preço bastante razoável. Ferdinand no entanto, decidiu aperfeiçoar a idéia de seu amigo e, em vez de cortar a orelha, achou melhor cortar as unhas o que não contribuiu em nada nas vendagens de seus livros. Resistindo à idéia de cortar a orelha, ele resolveu dessa vez, cortar os cabelos. Como nada acontecia, ele resolveu tirar as sobrancelhas, dias depois tirou a cutícula e, revoltado por não ter obtido resultado, depilou-se por completo, transformando-se assim no primeiro metrossexual da história. Em 1895, já conformado com seu fracasso no mercado literário, ele decide desfilar no carnaval pela escola de samba Unidos da República Tcheca, quando finalmente descobre sua vocação para compositor de samba enredo.

Voltando ao meu sonho, estava eu andando pelas ruas estreitas e sinuosas de algum lugar desconhecido e inóspito quando vejo do outro lado da rua, Ferdinand Kafka. Ele acena com bastante empolgação dizendo:
_ Hei Naaxtro, olha o samba que eu fiz! _ e começa a cantar um samba tocando o que parecia ser uma tartaruga com cordas:
“Salve, salve o marquês de Pombal
Quem mais chegou na esquadra de Cabral
Quem se importa com a tanga e a serpentina
Quando a prisão mais parece um palacete”

De repente, Ferdinand para de cantar e diz:
_ Você tem 10 rublos para me emprestar?
Então eu respondo que embora tivesse o dinheiro, não poderia emprestar, pois iria precisar dele. Ele responde meio desinteressado:
_ Ora, eu precisava dessa grana pra tirar um amigo da cadeia, mas deixa pra lá.

Então acordei assustado com o telefone anunciando a chegada do meu transporte. Levantei amarrotado e impressionado com meu sonho, pois ele havia sido bastante realista como se eu estivesse ido para a 6ª dimensão, embora eu não tenha a menor idéia de onde fica isso.
É provado que nossos corpos astrais abandonam nossos corpos físicos durante nosso sonho. Eu mesmo já consegui pagar minhas contas sem pegar fila no banco, uma vez que saía no meio da madrugada deixando o meu corpo físico em casa descansando. A vantagem de fazer uma viagem astral é que o seu corpo etéreo não precisa pagar passagem, além de poder entrar de graça em vários locais sem ser notado.
Aquele sonho (ou viagem astral do 3° grau) me deixou um tanto quanto consternado, aborrecido e porque não dizer, extremamente preocupado, pois tudo indicava tratar-se de um aviso em código do além, muito provavelmente querendo dar o recado de que minha vida corria perigo ou que talvez estivesse com alguma prestação vencida, ou quem sabe, ambos.

Segui para o Ministério das Relações Exteriores e de Interiores com a leve impressão de que algo de ruim aconteceria à minha pessoa. Chegando lá, fui recebido com toda a pompa que a ocasião merecia, inclusive com a presença de orquestra filarmônica do Kudhiquistão que consistia em uma sanfona, um pandeiro e uma flautinha, todos tocados por um único homem. Depois de ouvirmos a Septuagésima Quinta Sinfonia de Beethoven, o cão amigo, e a Qüinquagésima de Omar Baitola (também conhecido como o maestro alucinado), o ministro Ardisinho di Sorza fez um singelo discurso de duas horas e, em seguida, tomamos nossa tubaína enquanto comíamos mortadela e arrotávamos caviar além de discutirmos sobre assuntos do interesse nacional, internacional, global e intergalático. Quando demos tais assuntos por esgotados, o ministro gentilmente me convidou para darmos um rolê pelos corredores daquele fantástico palacete, onde pude apreciar as belíssimas obras de arte que decoravam aquele suntuoso local:
_ É com grande prazer sr. Naaxtro que apresento as obras do maior artista plástico que esse país já teve oportunidade de ver. Seu nome é Huggs Stanislab.
Para demonstrar um pouco de meu profundo conhecimento no mundo das artes, achei que seria de bom tom tecer um comentário acerca daquele quadro:
_ Realmente impressionante! Que linhas! Que estilo! Capto nessa obra toda a angústia e desilusão e, porque não dizer, amargor desse maravilhoso artista. Diria, inclusive, que identifico traços de um expressionismo naturalista niilista ultra-moderno e que, sem dúvida alguma, nos faz refletir sobre a condição da miserabilidade humana e canina, uma vez que o cão é o melhor amigo do homem_ falei.
_ Mas sr. Naaxtro, é apenas uma maçã! _ falou o ministro.
_ Sim, sem dúvida _ respondi_ Mas como bem sabemos a maçã tem um histórico bastante comprometedor, sendo instrumento de uma das piores tentativas de assassinato de nossa história recente, quando foi utilizada pela bruxa malvada para matar a Cinderela.
_ Não teria sido a Branca de Neve? _ falou o ministro.
_ Sr. Ministro, posso garantir ao sr. que a Branca de Neve seria incapaz de fazer mal a uma mosca. Além do mais, por que ela iria tentar matar a Cinderela se ela vivia tão bem com Peter Pan.
_ Hã, desculpe sr. Naaxtro, acho que estamos falando de Brancas de Neves diferentes. A que conheço morava com os Sete Anões.
_ Sim, sim. Mas ela só foi morar com os Sete Anões após a chamada revolução sexual ocorrida nos anos 60 em que ninguém era de ninguém. Mas voltando à questão da maçã, eu diria que Huggs Stanislab representa com essa figura um complexo edipiano de Adão, uma vez que Adão comeu a maçã e depois comeu a Eva, e não tendo mais nada para fazer, resolveu montar uma arca colocando todos os bichos dentro.
Não entendi muito bem o porquê, mas percebi que o Ministro Ardisinho di Sorza me olhava com uma cara meio assustada.
_ Suas conclusões são realmente surpreendentes sr. Naaxtro. Mas o que fez de Huggs Stanislab um artista tão popular, na verdade foi sua técnica inigualável, utilizando a própria língua no lugar do pincel.
_ Uau! Que história fascinante! _ falei, realmente surpreso _ Por favor continue.
_ Bem, na verdade ele desenvolveu sua técnica pintando paredes. Com o tempo, foi criando um estilo próprio e pintou seu primeiro quadro chamado “Madonna Mama Mia”, em que retrata um prato de espaguete com molho à bolonhesa, onde se destacam pitadas de queijo parmesão ralado e folhas de manjericão.
_ Simplesmente fantástico! E onde esse quadro está exposto?
_ Infelizmente, numa momento de grande dificuldade financeira, ele precisou comê-lo. Mas logo em seguida ele entrou na chamada "fase da frutinha", em que pintou uma banana, uma jabuticaba, um morango e finalmente esta belíssima maçã que estamos vendo. Depois vieram a "fase da casinha" e a "fase dos bichinhos peçonhentos", quando, por capricho do destino, teve que parar devido a uma terrível câimbra que começou a acometer sua língua toda vez que tentava pintar algo.
_ Não diga! _ falei.
_ Sim, desencantado e triste, ele começou a beber, pegou o pouco dinheiro que tinha e montou uma loja de carros e, então, passou a ganhar muito dinheiro. Mas isso não fez dele um homem feliz, muito pelo contrário. Um dia, pensando na bela carreira que poderia ter tido como artista plástico e revoltado com o rumo que sua vida havia tomado, num gesto de autodestruição, pegou todo o dinheiro que tinha e apostou num cavalo azarão. Mas veja como são as coisas. O cavalo azarão ganhou, e Huggs Stanislab conseguiu triplicar o seu dinheiro.
_ Nossa, que destino terrível para um artista tão talentoso! _ falei completamente emocionado.
_ Sim, sem dúvida! Mas não foi só isso. A vida, sr. Naaxtro, às vezes nos maltrata demais, como se quisesse nos dar uma lição. Quando tudo já estava perdido para ele, numa tarde de domingo, Huggs Stanislab recebe um telegrama dizendo que um tio seu havia morrido e que havia deixado para ele uma fortuna incalculável. Aquilo foi a gota d’água, e nosso artista foi completamente tomado pela depressão. Numa tentativa desesperada de se matar, jogou-se do segundo andar de seu prédio, mas não morreu, quebrando apenas o dedinho do seu pé. Recebeu uma fortuna da seguradora devido a uma cláusula específica referente a fraturas no dedinho do pé.
_ Sr. Ardisinho, confesso que poucas vezes na minha vida ouvi uma história tão triste _ falei enxugando as lágrimas.
_ Sim, sr. Naaxtro! Mas não contei tudo. O pobrezinho viveu até os 80 anos, morreu podre de rico, freqüentou festas, participou de orgias e namorou as mulheres mais belas de nosso país. Antes de morrer, em seu leito de morte, falou a seguinte frase: “alguém aí tem um cigarrinho?”
_ Realmente incrível, trata-se de uma biografia e tanto, digna de um grande artista! _ falei e completei modestamente_ Eu não sei se sabe, mas eu também sou reconhecido como um grande pintor em meu país.
_ Não me diga sr. Naaxtro. Sei muito a seu respeito, pois a fama de suas aventuras correram o mundo, mas confesso que não sabia desse seu talento.
_ Não o culpo por isso. Na verdade minha modéstia excessiva impede que as pessoas saibam de minhas qualidades artísticas. Mas tenho inclusive três quadros expostos no MAMTOMIRONCA (Museu de Arte Moderna de Tonga da Mironga do Caburetê) na sessão de “coisas estranhas e sem nexo que ainda precisamos compreender”. Meu estilo foi definido como “agressivo e desaforado com pitadas de classicismo vanguardista neopsicodélico” e inclusive hoje sou considerado um dos precursores do movimento artístico denominado de “Desaforadismo”.
_ Confesso que nunca ouvi falar desse movimento _ disse o ministro.
Percebendo que o ministro estava interessado na minha carreira como artista, continuei:
_ Bem, na verdade trata-se de um movimento novo que muito provavelmente vai dominar as rodas intelectuais do próximo verão. O movimento Desaforadista foi criado por mim e mais um amigo de longa data e artista de circo Zeca Ju, conhecido como palhaço Juca Pirulito, que além de ser um grande palhaço, também era trapezista, domador de tigres, homem-bala, atirador de facas e vendedor de pipocas sendo, inclusive, que fazia tudo isso ao mesmo tempo num mesmo espetáculo. Um dia Juca Pirulito me ligou falando:
“Hei Naaxtro, estou ligando apenas para mandar você para a puta que o pariu" e desligou o telefone sem ao menos aguardar minha resposta. Tentei ligar de volta para responder àquele desaforo, mas como só dava ocupado, decidi ligar para um outro amigo, e mandá-lo à merda, desligando o telefone em seguida. Esse meu amigo, por sua vez, fez o mesmo com um outro amigo e enfim, isso acabou gerando uma reação em cadeia. Em poucas semanas, o país inteiro estava se xingando via telefone. Esse comportamento virou moda e foi considerado um marco comportamental da Tonga da Mironga do Caburetê, denominado pelos críticos de arte como "Movimento Desaforadista". Inspirado nisso, pintei meu primeiro quadro representando um macaco prego de óculos e gravata. Na sua mão direita pus um telefone e na direita uma placa com os dizeres: “macacas me mordam”. Veja, carrego na minha carteira uma versão reduzida de minha obra.
_ Ora,ora! Veja só que coincidência _ disse o ministro_ Vi uma reprodução desse seu quadro numa revista de psiquiatria, mas não sabia que era o sr. o autor.
_ Psiquiatria? _ perguntei curioso.
_ Sim, tratava-se de uma matéria que analisava a arte feita por pessoas com graves problemas psiquiátricos. Mas não entendi porque utilizaram o seu quadro como exemplo.
_ Sim, sem dúvida deve ter havido algum engano. Provavelmente eles corrigiram na edição seguinte _ falei.
_ Bem, comprei a edição seguinte e havia mesmo uma nota dizendo: “embora o quadro mostrado na edição anterior pareça ser de uma criança de 4 anos de idade, trata-se de obra feita por um homem adulto que, para evitar constrangimentos, divulgaremos apenas as iniciais de seu nome "S.N".
_ Ah, creio que já sei o que aconteceu _ falei meio perplexo _ Como o sr. deve saber, nesse mundo das artes, existem muitos imitadores. Inclusive há um famoso imitador das minhas obras que assina como Sidnelson Nelson, com certeza foi ele o responsável por isso. Mas confesso que algumas vezes ele se supera e eu mesmo já confundi um quadro dele achando que era meu. Só me convenci de que aquele não era o meu quadro depois de me lembrar que jamais pintei vaquinhas pastando. Nunca gostei de vaquinhas pastando, não consigo entender porque alguém pintaria vaquinhas pastando. Vaquinhas pastando não representam absolutamente nada. No entanto, tenho um quadro com ovelhinhas pastando, esse sim, uma obra completamente arrebatadora.
Continuamos aquela interessante conversa por mais algum tempo, enquanto apreciávamos as obras daquele belo e imponente lugar, quando me ocorreu que já estava anoitecendo e que havia lido no “Manual de regras e condutas muito bem detalhadinhas para quem vai ao Khudiquistão” que era hábito daquele povo sempre se retirar da casa das pessoas antes de escurecer. Achei que já era o momento de me despedir, até porque aquele meu sonho premonitório estava martelando minha cabeça, como se dissesse "vá logo para casa Naaxtro, e pegue um táxi".
O ministro então se aproximou e educadamente falou:
_ Muito bem sr. Naaxtro, foi realmente um grande prazer recebê-lo nesse palácio, mas infelizmente tenho compromissos para daqui a pouco. Mas antes que partisse, gostaria que provasse uma de nossas principais iguarias: mousse de jiló.
Tentei manter minha classe e educadamente recusar aquela iguaria, uma vez que “mousse” e “jiló” a meu ver são duas coisas completamente incompatíveis. Mas o ministro insistiu para que eu experimentasse e, então, para não criar um incidente diplomático internacionalzinho, achei melhor aceitar o convite. Voltamos para a sala de visitas, onde algumas pessoas nos esperavam além do garçom que nos aguardava com uma bandeja repleta de uma coisa gosmenta e de aspecto nada convidativo, que muito provavelmente era o tal mousse.
Sentei-me à mesa e resolvi fazer um comentário para aliviar o clima que, não sei exatamente o porquê, estava achando meio pesado. Comparei o mousse à minha velha tia Elzidinha Naaxtro, pois ambos eram verdes e disformes, sendo que a única diferença é que minha tia usava batom, mas pela reação dos presentes na sala, ninguém pareceu me ouvir. Já estava com minha colher cheia daquela coisa gosmenta, pronta para colocar na boca, quando um homem entrou na sala se apresentando como chefe-delegado-escrivão-investigador de polícia:
_ Senhores, peço a atenção de todos por um momento. Desculpe atrapalhá-los com assuntos desagradáveis, mas eu mesmo tive que interromper a minha cervejinha gelada acompanhada de porção de salame com gotinhas de limão, para cumprir com o meu dever. Estou aqui em nome da chefatura de polícia de nossa cidade, para decretar a prisão do Sr. Springfield Naaxtro por ter cometido o crime presente na página 23 do nosso “Manual de regras e condutas muito bem detalhadinhas para quem vai ao Khudiquistão”.
Então todos na sala olharam para mim e disseram: _ Óóóóóóóóóó!
Simulando um certo nervosismo, aproveitei a ocasião para derrubar meu prato, o que resolveria a questão do mousse. Meu outro problema seria tentar convencê-los de que não havia cometido crime algum, o que não seria nada difícil, uma vez que, entre outras coisas, fiz um curso intensivo de direito de duas semanas por correspondência do Dr. Barney. No final do curso tirei meu diploma e ganhei um bottom com a frase: "sou amigo do Dr. Barney" o que me deu direito a comer esfihas de carne com desconto de 30% pelo ano todo.
Ciente da minha inocência, pedi educadamente a palavra:
_ Senhoras e senhores, percebi durante minha curta estada nesse país algumas coisas que me deixaram bastante intrigado: a primeira é que todas as minhas ceroulas foram roubadas ainda no aeroporto, o que me leva a crer que fui roubado por alguém adepto de magia negra que ambiciona fazer mal à minha pessoa utilizando as energias negativas emanadas por minhas ceroulas; a segunda é que acabei de me dar conta de que minha carteira também foi roubada o que significa que estou sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e, vindo do interior, não tenho como voltar para casa e, terceiro: que estou sendo vítima de uma armação fétida e maldosa, pois sem dinheiro e sem cuecas, não sou ninguém.
Como bom ator que sempre fui, comecei a chorar copiosamente, para dar mais veracidade ao meu depoimento, e continuei.
_ Sou um homem de reputação ilibada e, inclusive, faço parte do Little Tigers Club, da Sociedade dos Moços da Vila Sete, do Marmitão Futebol Clube e atualmente presido a Associação dos Mascadores de Chiclete de Menta. Como vocês podem ver, uma pessoa assim, não se envolveria com qualquer tipo de crime que pudesse destruir sua reputação. Sendo assim, declaro perante todos, a minha total inocência, ontem, hoje e sempre, e sem mais para o momento, com licença _ falei e fui em direção à porta quando fui segurado pelo delegado.
_ Sr. Naaxtro, eu diria que sua situação é realmente complicada, pois temos provas e testemunhas que confirmam que o sr. realmente cometeu um dos mais sérios crimes de nosso país. Infelizmente terei que conduzi-lo para a prisão, onde o sr. aguardará até que nossa justiça se manifeste se o senhor será trancafiado pelo resto dos seus anos ou se o sr. será condenado à pena capital.
_ Capital? Mas eu não tenho capital. Tudo que tinha apliquei na bolsa de valores e, como vocês bem sabem, a crise mundial nos levou à bancarrota _ falei indignado.
_ Sr. Naaxtro, em nosso país são aplicadas severas leis, inclusive a pena de morte para casos mais graves.
Tentei apelar para a influência do ministro Ardisinho di Sorza, mas ele me olhou com desdém e fingiu que não era com ele. Fui conduzido à delegacia como um animal selvagem de pelúcia, jogado numa cela fria, fétida e sem ventilação, e onde havia apenas uma banheira com hidro, um frigo-bar, algumas revistas de mulher pelada, uma TV 42 polegadas e um home theater, além de um velho e carcomido sofá de couro original da Julian Mérculo. Ao ser jogado na prisão ainda clamava por inocência, gritei por misericórdia e também para pedir o controle remoto que não encontrei em lugar nenhum da cela. Enquanto esperneava pelos meus direitos humanos, uma sombra apareceu no corredor e, dando uma sinistra gargalhada, falou: “Finalmente! Este é o seu fim Springfield Naaxtro”.


Ao que parece, nosso herói está mesmo em maus lençóis. Estaria Springfield Naaxtro sendo vítima de uma armação internacional? Nos dias de hoje em que todos andam ocupados, quem teria tempo para elaborar um plano tão malévolo?Essas e outras respostas você terá na seqüência dessa fantástica aventura de Springfield Naaaaaaaaaaaaaaaaaaxtro!.

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